sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Dízimo

Ontem tudo pareceu melhor. A tempestade dentro de mim havia cessado, porque eu havia encontrado um farol para iluminar a minha escuridão. O que era taciturno se rebelou. O que era amotinado se tornou calmaria.
Pela primeira vez, abri os braços para o desconhecido. Senti uma luz me envolver, fiquei estática. Troquei olhares sem medo de relevar segredos. Ele era o arcanjo que queria desvendar meus arcanos. Eu navegava em um mar de pecados e ele era envolvido de pureza.
Durante muito tempo acreditei que éramos incompatíveis. Talvez por suas outras chegadas tardias ou muito antecipadas. Mas dessa vez, eu abri a porta, apesar de ter somente a lhe oferecer rimas pobres, versos brancos e um gole de monotonia. E claro, um coração gélido. Ele aceitou meu humilde dízimo, abriu suas asas e me preencheu de luz.


Autora: Maura

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O que há por dentro, ninguém sabe.


Todos os dias Lisa fazia o mesmo trajeto. Seus cabelos longos e ondulados brincavam com o vento fresco. Ela observava pessoas, carros, árvores e as folhas que caíam das árvores.  Algumas pessoas que por ela passavam, conseguia-se arrancar de seus olhares aquilo que as afligiam. Consigo levara todas as coisas por quais havia passado em sua vida turbulenta, mesmo assim, não deixara nada transparecer. Era rodeada de tudo e todos e sentia-se sozinha. Sorria e ria para tudo e todos, mas no fundo, só ela sabia o quão infeliz era.


Autora: I.G.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Incerto...


E lá estava eu, a iludida, sempre iludida. Meu coração agora batia tão forte a medida que me aproximava, não podia mais recuar. Se meus pensamentos estivessem livres, eles me fariam dar meia volta. "Não posso, não posso lutar contra isso".
Eu pouquíssimas vezes tive coragem de dizer o que sinto, e quando o fiz, o que saiu foram gaguejos e monossílabos, enquanto meus olhos não conseguiam parar de contemplar o chão, talvez na esperança que algum buraco negro se abrisse e me sugasse daquela situação constrangedora.

Mas com ele era diferente, desde o começo.

Foi aquela coisa despretensiosa, sem expectativa, e ainda é. Com ele eu não tenho medo, digo o que penso, o que quero, o que não quero, o que quero, mas não ousaria dizer. Ele tem o poder de tirar as palavras da minha boca; e quando estamos sós, completamente sós, eu me sinto tão bem, sem borboletas no estômago ou frio na barriga, apenas paz, e vontade de ficar ao lado dele só um pouquinho mais. Mas na maioria das vezes eu quero esganá-lo, e tem momento que eu o faria com imenso prazer, é uma confusão de sensações, exclamações, e apenas uma reticência e uma interrogação:
"Queria saber o que é ,melhor, queria não estar sentindo ,seja lá o que isso for...
 Será que sou só eu, ou ele também está confuso?"
Ele estava perto agora, perto demais para que eu pudesse fugir sem parecer uma completa idiota; iniciamos nosso papo morno, sem graça, mingau, que vai melhorando conforme o tempo passa.

"Como dizer o que eu sinto, se nem eu mesma sei?"

Estava na hora de nos despedirmos, e em vez do aceno frio e distante, eu o abracei, e senti seus braços me retribuírem.
É o bastante, pelo menos por enquanto, pelo menos até eu ter certeza...

Mas nunca temos certeza dessas coisas

Autora: Nath

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Corre, só corre.

Eu o olho
Ele impiedosamente se move
A escolha está a um passo
Mas o tempo, deliberadamente, corre
As opções me devoram
Minh’alma discorre
Num tic-tac uniforme, o tempo
Ele corre.
No avançar dos minutos
Me vejo no fim do mundo
Enquanto todos aguardam
Eu me mover num segundo.
Sigo.
Os ponteiros disparam,
As horas se passam,
O relógio trabalha
Enquanto ele corre,
Só corre
O tempo...
Me socorre.


Autora: Ilka Souza

Enquanto tu gritas, ar.


 De uma forma diferente começou. De formas diferentes aconteceu. E agora tanto faz a forma, como tudo começa, como tudo acaba.
 Era como se eu estivesse voando. Vento forte sempre me traz liberdade. Acho que é assim com a maioria das pessoas. O mar estava bastante agitado e a areia quase me encobria naquele beco em que eu estava sentada. Mãos atando pernas enquanto o vento sacudia meu cabelo. O crepúsculo aumentava com os segundos, bem ali em minha frente, fazendo com meus fios loiros cintilassem em gritos.
 E gritos cintilavam de qualquer canto do meu corpo. Era totalmente impressionante e eu ainda não conseguia acreditar em tudo que havia acontecido. Bem ali, naquele mesmo lugar. Eu fechava os olhos, e enquanto um vento gritava em minha face, tudo voltava a acontecer em minha mente.
 Já havíamos vistos semanas consecutivas, naquela mesma praia. Os dois sempre ali, naquele mesmo lugar.  Não nos conhecíamos, e eu nunca via de onde ele surgia. Mas a cada noite, sempre no mesmo lugar e no mesmo horário, eu já esperava que ele aparecesse ali. Ele sentava-se ao meu lado e nunca tínhamos nos falado. Não necessitávamos de palavras. Uma simples troca de olhares e o resto da noite com os olhos fixados no pôr-do-sol. Ele tomou conta de minha vida, rapidamente, sem que eu notasse.
 Que diabos, nem conhecia aquele homem, e mesmo assim, me sentia obrigada a vê-lo todas as noites. Bem queria eu que fossem noites de sonhos, pequenos delírios enormes. Mas creio que tudo tinha que acontecer.
 Tiveram algumas noites em que ele se atrasava. Não sabia seu nome, mas sabia seus horários. Como a vida é irônica. E eu me sentia perdida ali, sem sua presença. Mas ele sempre aparecia. Ele sempre surgia do nada. Como um pássaro que persegue o ar, sem necessitar saber qual seu destino. E seu destino era, tão e simplesmente, eu.
 Lembro-me bem da primeira vez em que nos falamos. Eu havia brigado com meu pai e saído de casa. Naquela noite, naquele mesmo lugar, uma pequena trouxa de roupas me acompanhava.
 Quando ele se sentou ao meu lado, aquela noite, não teve troca de olhar. Foi apenas um olhar solitário -o dele- sobre mim. Lágrimas silenciosas escorriam pela minha face quando ele me abraçou e um ar forte soprou sobre nós. Eu senti uma dor aguda no peito, como se algo me dissesse que ali estava tudo que eu precisaria.
 E eu realmente me senti completa. Não necessitávamos de explicações. Nunca precisamos deixar nada muito claro. Era tudo subentendido e eu gostava disso. Gostava da forma como ele era excessivamente envolvente. Era totalmente diferente de qualquer outra relação. Eu lhe contei tudo que havia acontecido comigo nas horas passadas. Ele me aconselhava de uma forma tão intensa, que por momentos senti como se ele fosse meu pai. E realmente, eu o estava vendo como muito mais aconchegante do que meu pai biológico. Ele foi, daquele dia em diante, meu maior porto-seguro. E então, sem me dar conta, em uma noite, ele já conhecia minha vida inteira. Minha vida até aquele dia, pelo menos.
 Eu tinha um apartamento que nunca havia usado. Ganhei de um tio, para estudos. Foi para lá que eu fui no fim daquela noite extremamente fria. E mesmo tendo ficado longe da praia, nunca deixei de ir lá. Ainda vou, toda noite, no mesmo horário. Dizem que a mágoa faz mal para quem sente, mas para mim foi diferente. Tudo sempre diferente. E a mágoa, o enorme ressentimento fez com que eu nunca mais procurasse minha família. Não os sentia mais como parte de mim. Com o pouco que eu ganhava no escritório de minha amiga advogada, conseguia manter meu pequeno apartamento, e vivia muito melhor sozinha.
 Mesmo sem nunca termos dito nada disso, nós sabíamos que agora ele era minha única família. Não, não nos envolvemos em nenhum outro lugar, a não ser ali, naquela praia, naquelas noites, sempre no mesmo horário. Nunca nos encontramos fora dali. Nos encontrávamos apenas nos luares daquela praia e a linha que nos unia, fortalecia a cada dia. Ninguém nunca vai me amar melhor que ele.
 Éramos amantes fiéis. Pequenos namorados, e nunca precisamos dizer isso um para o outro. Simplesmente éramos e nós sabíamos disso. Mais de um ano se passou, e sempre estávamos naquela mesma rotina, todas as noites. Mas a rotina tinha sempre sabor de aventura. Cada nova noite, era um novo olhar, um novo abraço, um novo beijo. Era diferente a forma em que agíamos, todas as noites.
 Era uma noite de novembro, excessivamente quente. O ar soprava forte, e o mar estava totalmente agitado. Para ser mais precisa, era 27 de novembro, e eu tinha exatos 27 anos. Eu entendo isso como uma coincidência pré-destinada. Pode-se entender como bem quiser. Eu estava frágil. Passei meu dia todo esperando pelo fim de tarde. Ele chegou com um sorriso bonito. O mesmo sorriso encantador que só nele pode existir. Aquele beijo durou mais, durou a eternidade. Ele me envolvia em seus braços da forma mais acalentadora possível, e andávamos juntos, de mãos e bocas entrelaçadas, pela grande pedra em que sempre ficávamos. Nossos corpos uniam-se de forma tão fácil, que se tornava imperceptível a rapidez da aproximação. As pessoas costumam querer diferenciar o necessitar do querer, mas eu não vejo nenhuma diferença entre os dois. São dois em um, necessitar e querer de forma viciante e desesperadora. Era assim que sentíamos. Ambos, nós sabíamos.
 Nós sabíamos e sentíamos juntos, tudo que acontecia. O ar batia forte ali em cima, e o mar gritava amores lá embaixo. Nossa respiração se tornava, a cada segundo, mais ofegante. Não tínhamos tempo para perceber o que estávamos fazendo, muito menos como estava sendo feito. Há certas coisas que mesmo achando que está errado, não há mais tempo para voltar. Não tínhamos tempo para nenhum regresso, necessitávamos um do outro. Ali, naquelas pedras, naquele pôr-do-sol, naquele oceano, naquela dimensão, naquele deserto, somente mim e ele. Sem ter qualquer noção de tempo, todas as peças de nossas roupas já estavam esparramadas, quando nos lembramos de abrir os olhos, por alguns momentos.
 Mas já tornaram-se a fechar, porque necessitávamos disso, de estarmos interligados somente pelo toque. Ah, e seu toque era maravilhoso. Nossos corpos se uniam com força, com desespero, com atraso. Suas mãos eram ligeiras e percorria todo meu corpo, com cada detalhe e muita rapidez. Creio que durou horas, enquanto eu senti que foram segundos. Aquela rapidez fazia com que eu me sentisse em um delírio. E que delírio! Sua boca fazia com que eu sentisse meu corpo formigando. E ardia, ardia estar com ele. Ardia como ele me beijava, e como sua língua percorria todo meu corpo. Ardia como suas mãos apertavam com segurança meu corpo contra o dele. Ardia como seu corpo suado caía sobre o meu. Ardia como ele me penetrava e se tornava parte de mim. Se tornava meu, se eternizava em mim. E ainda arde, e é como se a todo momento eu sentisse ele dentro de mim.
 E não havia forma de nos aliviarmos daquele delírio tão torturante. Me doía a forma como eu precisava dele. E quanto mais ele se tornava meu, mais dele eu queria. Era como um círculo viciante sem fim, sem fim como aquela noite. Ela realmente não teve fim, para nenhum de nós dois.
 A repetição acontecia sem intervalo, sem tempo para pensar. Parecia que sabíamos que aquela noite deveria valer pelo resto de minha vida. Não tinha limite para nossos corpos, nos sentíamos voando junto àquele vento imenso que parecia voar somente para nós. Nossos corpos flutuavam muito levemente, e tudo que eu podia sentir era o seu corpo. O seu corpo no meu, de forma dura e segura.
 Aquela noite jamais acabaria. E realmente, para mim nunca vai acabar. Porque minha mente insiste em realçar cada detalhe de todas as cenas daquela noite. Minha mente grita junto com o ar. Porque enquanto nós gritávamos, num suspiro interminável, para tentar aliviar toda aquela tensão tão forte que a união de nossos corpos proporcionava, o ar gritava conosco. Gritava forte, em um assobio sem fim.
 O pôr-do-sol se substituiu pelo brilho lunar, e agora as estrelas nos vigiavam. Eram nossas cúmplices. Únicas cúmplices de que não era apenas um sonho meu, de que eu não estava delirando. Não de forma literal, pelo menos. Estávamos abraçados, no canto da rocha, sem dizer nada. Apenas sentindo o ar nos cortar e uma liberdade imensa nos fazer sentir as pessoas mais felizes do mundo. E não somente por aquele momento, mas para sempre. Nossos risos eram os mais altos e ecoavam por toda aquela praia. Era bom se sentir independente, se sentir mais forte que o próprio ar, que o próprio mar. Se sentir mais forte do que toda aquela natureza à nossa volta, que nos observava perplexa. E tenho certeza que era exatamente isso que ele sentia, quando se levantou rindo, e rodopiando à minha frente, me puxando em seus braços, me envolvendo. Dois corpos dançando no espaço. Um corpo caindo no espaço.
 Foi exatamente o que eu vi, quando em um último riso cortante, o ar se mostrou invejoso à toda aquela felicidade, e jogou-se sobre ele. Um último rodopio irritante e irresponsável, no canto de uma rocha alta, no alto mar que se agitava cada vez mais. E então caiu. E seu grito ainda me parecia um riso, um riso extremamente irritante. Corri, gritei, bati no vento, olhei. Mas não via mais nada. Assim como tinha começado, do nada, sem nenhuma explicação. Assim tinha acabado. Ele simplesmente havia sumido, simplesmente assim, o mar o encobriu e o abrigou eternamente. E o ar calou minhas lágrimas e meus gritos. Que nada mais faziam sentido. Não tinha mais nada a fazer ou a ser dito. Eu sentava sozinha ali e nada mais adiantaria.
 Mas nunca deixei de voltar ali. Todas as noites, naquela mesma rocha, o ar que grita em minha face, me faz ouvir sua voz me dizendo que está tudo bem. Me dizendo que eternamente vai estar comigo. Eternamente vai arder em mim sua presença. Meu corpo sempre vai arder e formigar enquanto eu estiver sentada naquela rocha, com todas as lembranças acontecendo em frente aos meus olhos.
 E agora, somente alguns meses depois do acontecido, sinto algo se mexer em mim. Coloco minha mão sobre meu ventre e sinto o toque de um pequeno ser crescer dentro de mim. É parte de nós dois, é resultado crescente de minha maior aventura. É a prova mais concreta de que meu delírio foi real. Prova de que o momento se eternizou. E mais, um momento cresceu e se tornou único. Um pequeno serzinho chutando fortemente minha barriga, me dizendo que está feliz por estar comigo. Me dizendo que não sou a única a sentir falta dele. Mas que também não sou a única a sentir sua presença no vento que percorre aquele mar. E naquela rocha, eu sempre vou ouvir seu riso e eu sempre estarei feliz. Um ser cresce em mim, para que eu não esteja sozinha. E essa é minha maior certeza de que ele estava certo. Ele nunca me deixaria sozinha. Ele se fez substituir e estar comigo sempre, continuar em mim. É, eu sei, tudo ficará bem.

Autora: Anna Carla Fabris Ernandes

domingo, 12 de fevereiro de 2012

George fugindo

O corredor entre os dois prédios era escuro, mas ele não tinha alternativas, precisava continuar fugindo. Não via muito além de dois metros à frente, e ouvia os passos apressados atrás de si. Os gritos ainda ecoavam em seus ouvidos; só de lembrar ele era dominado pelo pavor e embora não parasse de correr, procurava desesperadamente um local para se esconder.

"Não adianta fugir, George. Nós vamos te pegar de qualquer maneira", dizia a voz rouca e gutural. Ele sabia que era verdade, estava cansado e logo não aguentaria mais correr. Então, se não estivesse bem escondido ou seguro em algum lugar - estados que ele desconhecia desde que saíra de casa, há dois dias atrás, - ele seria pego.

Alguns instantes depois, sem parar de correr e examinar freneticamente cada canto pelo qual passava, o corredor por onde ele seguia acabou. Não era um corredor, era um beco. Sem saída. George apalpou a parede à sua frente, procurando alguma reentrância para se apoiar, escalar, subir, escapar; mas não havia nada. Então ele sentiu aquela presença que parecia vir de todos os lados, com seu cheiro adocicado e enjoativo. Era como se o tempo tivesse parado. Não ouvia nada, o ar estava pesado para respirar, sentia a aspereza da parede de tijolos atrás de si, e aguardava, olhando para a imensa escuridão à sua frente.

"Teria sido mais fácil se entregar antes, rapazinho!", ele ouviu então. "Não há como fugir de nós! É engraçado como muitos pensam que conseguem, e o final é sempre igual!"

George caiu de joelhos e fechou os olhos, pedindo ajuda a todos os deuses, torcendo para que fosse salvo de uma maneira ou outra. De repente, aquela sensação de alívio e paz e conforto, preenchendo-o por completo. Ele agradeceu, mas estava enganado. Não fora salvo.

Ele estava perdido.

Autor: Dimas

Blog: http://dimhr12.blogspot.com/

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Desespero

Sentada na calçada esperando algo acontecer, uma resposta do céu cair em meus pensamentos, e eu descobrir o que fazer, aquela velha musica começa a tocar, cansada de esperar sentada por uma resposta, vou correndo até sua casa, a chuva começa rapidamente  não vou parar, não vou parar de correr, por você eu enfrentarei tudo, até o que for impossível, enfrentarei  céus e infernos se você estiver segunda  a minha outra mão. Correndo na chuva desesperada, tentando chegar o mais rápido possível antes que a nossa velha musica acabe, antes que a chuva me pare, antes que algo de ruim aconteça comigo, não desistirei de você, preciso chegar a tempo de dizer que te amo, tenho que chegar a tempo pra fazer você ficar aqui comigo,  não me deixei só meu amor, não cometa o mesmo erro que eu.
 Você estava indo embora pra me esquecer, mas admita não ia adiantar, eu sou tudo pra você e você é tudo pra mim, por que simplesmente não me perdoa? É tão difícil vencer o orgulho, mas sei que por amor qualquer um consegui, vou estar aqui com você, só me perdoe pra tudo voltar ao normal, não consigo viver sem seu amor, sem seu carinho, sem seu cheiro, seu abraços, seus beijos, tudo que preciso é você, volta, volta para mim, vou te receber de braços abertos e não importa o  tanto que você errar, vou sempre te ajudar. Meu erro foi grave eu sei, mas, por favor, não me faça sofrer mais. Segurei a sua ultima carta, com cada palavra outro sentimento crescia fechei meus olhos relembrando os momentos que tivemos juntos, por que não faz o mesmo? Você vai ver que tudo que precisamos é um do outro, vamos juntos viver eternamente, vamos juntos sofrer e superar venha e me salve, me salva  dessa grande solidão, só você pode me liberta, só você pode estar do meu lado, Estou assombrada pela sua sombra, tento me levantar desse chão molhado, sem forças pra continuar correr, você esta na minha frente tento me levantar pra alcançar seu rosto, você não esta aqui, você esta aqui? Volte amor, fica comigo, venha e salva-me.

Autora: Mirian

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Res(pirando)

Parte I.
O portão da clinica psiquiátrica era coberto de folhas e com flores rosa que ressaltavam entre o verde e meus olhos castanhos. Eu procurava enxergar la dentro, mas a única coisa que via era uma parte do teto laranja, parecia ter acabado de ser pintado. 
   Eu não sabia o porquê de estar ali, e também de estar nessa situação. Meu pai estava com um braço atrás do meu ombro e minha irmã dentro do carro chorando. Eu tinha medo de olhar pra traz e de ver aquelas lagrimas caindo, o som da sua angustia já me torturava o suficiente. 
   Ouvi um sinal de vida, vindo atrás do portão. Era a uma voz mansa e confortante. O portão foi abrindo aos poucos e seus cabelos castanhos claros foram aparecendo, ela estava vestida de azul e com um crachá com seu nome que não pude ler, pois ela já veio me abraçar e eu realmente não gostei disso. A falsidade saia de dentro dela e me pinicava completamente, eu sabia que ela não se importava se eu estava bem ou não, pra que perguntar? 
   Fui entrando e conhecendo superficialmente o espaço que me cercava. Era tão lindo e falso. Parecia ser feito estrategicamente para me deixar mais perturbada, todas as flores separadas em fileiras e bancos extremamente brancos, pessoas de uma olhar confuso e enfermeiras cobertas de descaso. Resolvi que já era demais pra mim e coloquei meus fones de ouvido e aumentei até o ultimo volume. Andei e conheci o jardim por conta própria. Bem, era o que eu achava. Uma mulher de branco me observava de canto ignorando a sua paciente ao lado clamando sua atenção, olhei a fixamente, e virei o rosto, continuei a minha caminhada na qual havia certeza que não daria a lugar algum.
   A enfermeira foi se aproximando e resolveu que ia falar comigo, mas eu não tinha resolvido se ia respondê-la, alias. Evito contato com as pessoas, tenho medo do que posso falar ou fazer com elas.
- Bom dia, meu nome é Ane e o seu? – cínica.
- Charlote.
   Eu realmente esperava que ela tivesse entendido o timbre da minha voz e se afastado, mas ela insistia em acabar ouvindo algo desagradável aos seus ouvidos.
- Então Charlote o que faz aqui?
- Vim Passar um fim de semana descontraído. Sabe nada melhor que passar sábado e domingo inteiro com a mais pura diversão no meio de loucos.
    Ela fez uma cara de surpresa e depois deu um sorriso de canto, mexeu nos cabelos pretos, estralou os dedos. Todos esses movimentos eram pra ganhar tempo e arranjar uma resposta.
- Essas pessoas não são loucas. E se você esta aqui é porque esta com problemas que nem os outros.
- Bom, se elas não são loucas não sei o que fazem aqui.
   Irritei-me profundamente, e sai antes que acabasse pulando em cima dela e arrancando aqueles olhos verdes perfeitos e impuros. Eu via no seu jeito de olhar as outras pacientes, eu via o que no fundo o que ela queria fazer com elas, porque era a mesma coisa que eu queria fazer com ela.
   Fui para dentro daquela enorme clinica e meu pai estava na porta me esperando, a mulher de azul me acompanhou até uma sala linda com um toque vintage e me pediu para esperar a Dra. Tyler. Tenho a péssima mania de tentar decifrar o que o espaço quer dizer, acho essa coisa meio antiga dos moveis muito legal, mas isso me remete a uma pessoa observadora e sinceramente, pessoas observando-me me deixa descontrolada, completamente perturbada.
Ela abriu a porta e foi entrando como se eu não existisse, só depois que sentou pareceu notar a minha presença.
- Bom dia, Charlote né? – disse ela.
- Sim.
- Então, o que faz aqui?
Eu realmente tenho a resposta na ponta da língua, mas o medo de falar parece que isso vai se tornar verdade.
- Eu não sei, meu pai me trouxe aqui na esperança que você descubra.
- Esta bem, hoje eu não tenho muito tempo para longas conversas Charlote – e espero que nunca tenha- só queria lhe conhecer, a Ane vai lhe mostrar seu quarto. Você vai ficar aqui no mínimo uma semana, mas não se preocupe é um ótimo lugar para relaxar.
Algo me subiu na garganta e eu não pude conter.
- EU NÃO QUERO RELAXAR! Eu só quero sair daqui, eu to me sentido vigiada e com uma vontade de atacar todos a minha volta, vai atrás do meu pai e pede pra ele me tirar daqui! Eu não sou como essas pessoas, eu não sou louca! 

Autora: Taynara Munique
Parte II: Link 2
Parte III: Link 3

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Adeus


         Era noite, uma linda e perfeita noite de verão, uma leve brisa pairava no ar, ao som reconfortante da água em contato a areia. Era exatamente meia noite e meia. Havia uma figura sobre a areia apreciando o ar salgado, uma garota desengonçada refletia sobre seus pequenos medos e desejos incompreendidos. Em pensar que apenas catorze dias atrás ela estava a 1500 km dali.

           Suas lágrimas imperceptíveis caindo na areia molhada não explicam exatamente sua confusão adolescente. Ela já estava na estrada há duas semanas, um dinheiro limitado, nenhum destino. Pequenas coisas ali não tinham importância, só esperança e liberdade isso que ela queria. 

         Há seis meses ela que tinha uma vida perfeita, essa vida se foi tão de repente, assim como veio. Estudar vir a ser alguém um dia... Ela cansou, pegou sua mochila velha com um sorriso no rosto deixou sua casa, sem consequências, sem se importar com o amanhã. Uma pequena fé que tudo iria ser bom um dia.

          Quando chegou ao seu destino, notou que tudo havia mudado como de costume ela notou-se perdida. Andou dois dias até aqui, para sua mente não conseguir entender, para onde ir, para não saber o que fazer.
          A água esta fria e convidativa, ela ira pra lá, para nunca mais voltar.

Autora: Andressa
Blog: Otherside

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

AMORte


Descrição: http://1.bp.blogspot.com/-sLHgTZOSJPM/Ttts_m3ZahI/AAAAAAAAANE/CotkPjzYaZs/s640/Poland_1939.jpg

4 da manha, Campos de Wertron, Polônia, 1939
Estava frio e a neblina subira bastante desde as três da manha, quando a tropa principal havia partido, eram 18 pelotões de 300 homens todos munidos de uma Sturmgewehr “Fuzil de assalto” 44 que pesava quase uns 6 quilos, cada pelotão tinha a posse de 160 Maschinengewehr “metralhadora” 43, além de 15 veículos motorizados e 90 cavalos. O chão ainda retumbava os seus passos, e os ecos da noite ainda ressoavam “Lili Marleen” seu brado da vitória: 

“Aus dem stillen Raume, aus der Erde Grund
Volto à Pátria, com os louros da Vitória,
Hebt mich wie im Traume dein verliebter Mund.
Após ter escrito uma página na História.
Wenn sich die spaeten Nebel drehn,
Por ti a Paz eu conquistei,
Werd' ich bei der Laterne stehn
E para o lar eu voltarei,
Wie einst Lili Marleen, wie einst Lili Marleen
Contigo, Lili Marlene, Contigo, Lili Marlene.”


       O coronel Fritz Wolfhardt, Comandante das tropas, havia ficado em wertron deixando o comando provisório do esquadrão para o Tenente-General Franz Jackel . O coronel havia ficado em território de batalha com 2300 homens e se certificará que de que havia um numero expressivo para sua proteção. Há 30 anos no exercito alemão e há 4 no Wehrmacht (Força de Defesa Alema) Fritz Wolfhardt havia conseguido dinheiro e reputação. Embora o que lhe agradasse mesmo fosse sentir o chão tremer quando passava perto de um batalhão devido o chacoalhar dos soldados que o temiam mais do que a própria morte. Não se importava dos boatos e lendas que o rondavam, tão pouco os desmentiam para ele era eficiente, causava pavor nos exércitos inimigos e como ele mesmo dizia: é mais fácil tirar a vida dos que já estão mortos por dentro. Agora ele se encontrava ali em meio aos mortos no campo da vitória .Wertron era uma cidade razoavelmente pequena, tinha 60 mil habitantes que sobreviviam da plantação de batata e beterraba, a primeira vista não haveria nada que interessasse a Wehrmacht para que um combate fosse travado, logo se alguém soubesse do real motivo do ataque a Wertron seria o coronel. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

QUEM AMA DESCONFIA.


Carolline tinha tudo o que um namoro recente poderia oferecer. Carinho beirando o exagero, atenção incondicional como assistência 24 horas, a qualquer hora e lugar, mesmo longe bastava um telefonema.
Tinha afeto e se sentia totalmente protegida nos braços de seu recente amor.
Tão protegida que se esquecia do mundo e as pessoas em sua volta tornavam-se imperceptíveis quando estavam juntos. O som que ouvia era somente o sussurro no ouvido dizendo o quanto era amada.
-Eu te amo.
-Não, eu te amo mais. Disputavam o casal. Essa era a única divergência entre eles.
Os pelos do corpo de Carolline ganhavam vida ao menor sinal de calor do corpo de seu amado.
Venâncio por sua vez tatuaria na testa se pudesse, que estava apaixonado, enfim apaixonado. Não que precisasse, pois qualquer um que já tivesse sentido uma fração qualquer de amor notaria por seu sorriso constante, sua vaidade aflorada, disposição exacerbada e senso de humor inesgotável que ele, Venâncio, encontrara aquele tal do amor.
O rapaz tinha aquela sensação de ansiedade que durava o dia todo, no início confundiu o frio na barriga com fome e ganhou dois quilos nas primeiras semanas de relacionamento, mas logo depois percebeu que o que sentia eram as borboletas esvoaçantes que deram cria em seu estômago e agora era primavera.
O futebol no fim de semana com os amigos de infância já não era tão divertido, exímio atacante que era, acostumado a fazer gols e criar comemorações diferentes com seu companheiro de ataque, nem comemorava mais e a pelada do sábado perdia os dribles e firulas do atacante.
Venâncio queria mesmo era estar com Carolline, todo tempo, o tempo todo.
-Deixe de ser fominha Venâncio, parece que nunca viu mulher. Guarda um pouco de perna para a pelada com a rapaziada. Cobrava seu amigo Garcia.
Sem dar ouvidos, Venâncio era só Carolline e vice versa.
O garoto sempre fora o dono da mesa do bar, todos paravam para ouvir suas histórias, teorias e segredos de conquistas. Também era politizado e aguentava um porre como nenhum outro. A mesa perdera seu dono, o bar seu melhor e maior freguês e seu fígado agradeceu.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um conto sobre períodos de tempo.

Torrencial não descreve totalmente o estado de espírito da chuva que batia em minha janela. Os relâmpagos eram tão fortes e sequenciais que, caso não tivesse certeza de tê-lo desligado, verificaria meu abajur. Havia sido um dia complicado. Desde que ele partira, os dias eram complicados. E ele partira há bastante tempo. Eu já era quase boa em controlar dias complicados. A ausência era presente, se é que isso é possível. Meu quarto assumia um ar fantasmagórico quando as tempestades aconteciam, ele se tornava sombriamente assustador, Até mais do que minha alma estava se tornando. Não tê-lo ao meu lado só tornava tudo isso pior. Costumávamos rir em meio aos trovões. Ele dizia que os risos afastavam todo e qualquer medo que se aproximasse de nós. Eu ria e esquecia de todo o resto. A salvação da minha noite era essa e eu tinha absurda noção disso. Cada célula do meu corpo sabia que a melhor à ser feita, era discar aquele velho e conhecido número de celular. Se ele atenderia ou não, era o que me preocupava. 
       Olhei para o criado mudo, o celular jazia tranquilo sobre um velho trilho de crochê. Uma foto de infância estava totalmente visível, mesmo com todas as luzes apagadas. Observei-a. Eu, uma linda menininha de cabelos longos e escuros, trabalhados em uma bela trança, provavelmente tecida por minha avó, habilidosa como ninguém quando o assunto eram trabalhos manuais. Pobre vovó, se fora e eu nem pude agradecê-la por todos os momentos maravilhosos que passamos juntas. 
       Em meio a minha pequena distração, minha música preferida começa a ecoar pelo ambiente. Regina Spektor cantava The Call  à plenos pulmões. A calmaria trazida pela melodia se infiltrou em mim, mas logo o medo, acompanhado pelo discernimento do que aquele som implicava, tomou conta de todo o meu ser. The call era o toque especial das chamadas que provinham do celular dele. Meus neurônios organizaram uma breve linha de pensamento: Se essa música está tocando, é porque ele está ligando. Peguei o celular e observei-o, aguardando um segundo até que a minha visão se adaptasse à intensa luz que fluía da tela. Seu nome saltou-me aos olhos. Eu não precisava ter olhado para ter absoluta certeza do remetente dessa chamada. 
       Entre um clarão e o próximo, o telefone ficou mudo, de repente. 
       "Ele desligou. Não queria falar comigo, de verdade. Só queria imaginar o quão feliz eu ficaria por vê-lo ligando durante uma tempestade, o que significava que eu estaria morrendo de medo."
       Novamente, The call inunda o quarto de modo pleno e absoluto. 
       "Não era verdade, ele realmente quer falar comigo." Tive de lembrar à mim mesma, de súbito. "Não crie expectativas. Ele foi embora, você sabe disso. Não pode iludir-se que vocês foram feitos um para o outro, porque simplesmente não foram." Regina já estava quase no refrão, o que significava que, dentro de alguns segundos, a chamada seria encaminhada para a caixa postal. 
       - Alô? - Tentei parecer o mais controlada quanto pude, mas ao abrir os lábios eu soube que não havia sido o suficiente. 
       - Atrapalho? - O mistério, como sempre, estava presente em sua voz. Seu tom sutil, demonstrando um interesse repentino pelo que eu estaria fazendo. Recordei-me, por um breve instante, do brilho que seus olhos emanavam na última ocasião em que havíamos nos visto. Olhos numa tonalidade absurda de mel, um tom que jamais seria encontrado em qualquer outro par de olhos. Uma cor que só se encaixava bem em sua pele radiante. 
       - Atrapalharia o que? Por favor, Benjamin, não há nada para atrapalhar. - A raiva transpareceu. Era o último sentimento que eu esperava demonstrar, mas lá no fundo, eu sabia que sentia uma raiva qualquer por ele. 


       - Imaginei que você pudesse estar dormindo, Clara, só isso. Era isso que eu imaginei que atrapalharia. - Ah, isso. Lógico, só podia ser isso. Seria prepotência minha pensar que ele sequer pensasse que eu poderia estar com outro alguém, sendo feliz e seguindo minha vida. Até porque eu não tenho direito a isso, não é? A raiva só fez crescer dentro de mim. 
       - Olha, se você cogita que eu consigo dormir se não for ao teu lado numa noite dessas, está enganado. Se você pensa que eu me deixei apaixonar por outro alguém, está errado. Por mais que nos judiássemos, nos amávamos. E você... Ah, você fez questão de dar um fim à tudo que houve de mágico entre nós, não fez? - Comecei a soluçar como uma menina boba que chora porque perdeu seu brinco preferido. - Você acha que tem o direito de me ligar depois de todas essas semanas em que eu fiquei aqui, sozinha, tentando definir um bom motivo para você nunca mais ter me dado notícias? Acha que pode me confundir com qualquer que sejam as suas palavras? Acha justo tudo isso? - As lágrimas insistiam em cair dos meus olhos. Pesadas e cristalinas, escorriam pela pele clara das maças do meu rosto e faziam tortuosos caminhos até acharem seus destinos, ou se perderem em parte qualquer. 
       - Clara, eu amo você. - Simples assim. Destrutivo assim. 
       Minha mente esvaziou-se por um momento e só houve silêncio, exceto o respirar que vinha do outro lado da linha e do pulsar contínuo do meu coração.
       - Eu não quis te magoar quando fui embora, Clara... - tive de interrompê-lo.
       - Você não quis me magoar? Esse foi um dos poucos sentimentos que você me deixou. Mágoa. Ressentimento. Desamor. - Eu parei de soluçar no exato momento em que comecei a pronunciar as palavras anteriores. Montei uma mulher forte dentro de mim. Uma mulher que não queria mais ser iludida por um Bohemio qualquer. Aquela que fazia Psicologia e que podia entender qualquer problema da Psique Humana, menos a falta de caráter que Benjamim estava demonstrando. 
       - Clara, eu sinto muito que tenha de ter sido assim. A última coisa que eu esperava era magoar-te, sempre prometi que te faria feliz acima da minha própria felicidade. Te chamei de amor, quando eu sabia o que isso implicava, eu sabia que morreria por você em qualquer que fosse a circunstância, minha peq... -  Interrompido novamente. 
       - Não pronuncie isso. - Fui ríspida, quase grossa. Quis demonstrar uma atitude forte, e acabei sendo autoritária. 
       - Porque não? Você sempre gostou de ser chamada assim. 
       - Eu gostava de ser chamada assim quando era uma verdade. Eu era a sua pequena. Eu era asua menina, o seu anjo, o seu amor. Agora eu sou o seu passado, ou melhor, eu faço parte dele. Seu passado não pertence só à mim, pertence à tantas outras que também foram 'suas pequenas', 'suas lindas' e 'seus amores', assim como eu fui. Sim, fui. Do verbo Ser, mas no passado, que é o seu lugar. Um passado que, quando se trata do mim, foi só seu. - Encerrei do modo como eu ansiava encerrar. 
       - Então, você realmente naõ me deseja ao seu lado, nessa noite estranha e sombria? - Aposto como ele estava dando um sorriso torto, totalmente convencido, achando que venceria por tocar nesse assunto. 
       - Você quer que eu minta, ou que diga a verdade? 
       - O que você achar conveniente. 
       - Não é que eu não sinta a sua falta em momento como esse, Benjamim, mas eu tenho uma dose bem grande de amor próprio e sou madura o suficiente para entender que quando sou abandonada uma vez, posso facilmente ser abandonada novamente. Tenho consciência de que se você fez isso uma vez, será capaz de fazer de novo. E sinceramente? O que eu senti nessas semanas em que você não estava ao meu lado, eu não desejo a ninguém. Portanto, eu decidi, nesse exato momento, que eu não desejo a sua presença em minha cama. Nem em noites tempestuosas, nem em noites felizes, nem em noite alguma. O amor que eu senti por você foi substituído por um sentimento que eu não conhecia, uma dor profunda que me mostrava o tamanho do estrago que você havia feito. Um estrago que só um novo amor poderá fazer cicatrizar.  
       - Eu sinto muito. - Ele disse, com um leve pesar no seu tom de voz, que por um momento percebi estar embargado. Ele estava chorando. 
       "Ele precisa de um instante", pensei.
       O silêncio reinou por alguns minutos. 
       - Benjamim? 
       - Sim? - Ele pronunciou, fazendo um barulho que parecia com o soluçar de uma criança desprotegida quando está perto de um perigo. 
       - Eu ia te ligar. Quando peguei o celular nas mãos, ouvi a canção que eu sempre ouvia quando você ligava pra mim. A nostalgia tomou conta de mim em um breve momento. - Tive de revelar esse pequeno,  mas envergonha-te detalhe.
       - Você estava me ligando, Clara? Isso significa que você pensou em mim? - Uma esperança sutil começou a surgir no longínquo horizonte da sua mente. 
       - Benjamim, eu não deixei de te amar, nem por um segundo. Eu senti raiva por você ter me abandonado, me trocado. Mas bem lá no fundo, que é onde os bons sentimentos ficam guardados, eu gosto de você, como gostei desde que olhei com outros olhos, há quase dois outonos atrás. Afinal, você mesmo diz, o amor é como uma fênix: quando ele está machucado demais para continuar vivendo daquele jeito, ele morre e renasce novamente, pra que possa continuar existindo. Assim como muitas outras coisas na vida, é necessário que deixemos algumas coisas se tornarem ruins por um momento, para que essas mesmas coisas possam se tornar melhores em um momento seguinte. 
       - Você vai ser uma ótima psicóloga, Clara, meu amor. - Visualizei o belo sorriso que estaria siando de seus lábios avermelhados e que eu ansiava tanto. 
       - Eu ainda não sou seu amor, novamente. Você sabe, as coisas precisam de um incentivo para renascer. - Cruzei os dedos, imaginariamente, torcendo para que ele entendesse a indireta convidativa que surgira na última frase dita. 
       - Clara? 
       - Sim? 
       - Será que você pode vir aqui em baixo e abrir a porta pra mim? Eu estou um pouco molhado e o vento está ricocheteando no meu rosto de forma violenta. Eu realmente espero que você ainda tenha o meu moletom guardado em um cantinho da sua cômoda. E espero mais ainda que esteja usando o edredom florido, aquele de malha que esquenta bastante. 
       A única expressão que meu rosto demonstrava era surpresa. 
       - Espere um momento, você está na portaria do meu prédio? - Aturdida, pronunciei. 
       - Estou. 
       - E você espera que eu te deixe subir e entrar embaixo do meu edredom florido que esquenta bastante? - Ri, quando lembrei do detalhe sobre o meu edredom que ele havia citado. 
       - Clara, eu não espero que você me deixe entrar e que me ame a noite toda. Eu apenas peço que você me dê uma nova chance. Eu sei que não agi de forma correta quando deixei você, mas eu realmente pensei que nós não tínhamos futuro. Fui para a Turquia, trabalhei com meus avós durante algum tempo e vi que meu futuro é ao seu lado, tentando entender os seus dogmas e dando um jeito de aturar a sua TPM, que é pra matar qualquer outro. Mas que pra mim, é a época onde você fica mais linda. Eu não tinha noção de que viria pra cá essa noite, mas quando você disse que estava com ódio de mim, eu pensei que a melhor atitude que eu poderia ter, seria, ao menos, vir te pedir desculpas na sua porta, e não pelo telefone. Agora eu espero que você consiga me perdoar e deixar que eu construa um belo futuro, ao teu lado, cruzando o nosso destino e entrelaçando os meus dedos aos teus. 
       O fôlego sumiu. Eu era linda durante a TPM? Ah, isso era o que menos importava. Ele realmente queria estar comigo durante um período bem longo de tempo chamado futuro. 
       Foi a minha vez de fazer silêncio. Abri a porta com o máximo de cuidado que pude, para que ele não pudesse ouvir o barulho das dobradiças. Dirigi-me as escadas e desci no máximo de velocidade que eu pude, sem demonstrar meus suspiros a cada vez que eu percebia que estava mais próxima ao térreo. Não tirei o celular do ouvido durante todo esse trajeto. Fiquei ouvindo sua respiração, e imaginando o sabor que seus lábios teriam no momento que eu o encontrasse lá embaixo. 
       Foi só chegar ao fim da escada e botar os pés na varanda que antecedia a porta do prédio que o vi, parado, encostado na portaria e olhando a rua. Esperando um milagre... imaginei. Dei leves batidinhas no vidro da porta, para que ele pudesse perceber que eu estava ali. Com uma surpresa aflorando, ele me fitou, aqueles olhos cor-de-mel olhando profundamente nos meus. Deu um passo. O porteiro o reprendeu. Eu assenti para o porteiro, que o deixou entrar. 
       Benjamim pingava. Parecia que o temporal havia se focado nele e que haviam chovido milhões de milímetros por sobre a sua cabeça. Fiquei ao lado da porta, do parte de dentro, aguardando que ele entrasse e me tomasse nos braços, com paixão. O que vi, foi um homem, e não mais um Bohemio. Ele entrou pela porta rapidinho, para que a chuva não pudesse entrar com ele. Olhou-me nos olhos, com uma intensidade irracional, de um jeito que, acredito eu, seria capaz de transmitir palavras, caso fosse possível. Não disse nada, apenas deu-me um leve beijo nos lábios. Um beijo que não tinha paixão, mas sim ternura e respeito. Nesse ato eu percebi que ele respeitaria o meu tempo, e que teríamos todo o tempo do mundo. Entrelaçamos nossas mãos. Sem falar nada. Eu apoiei minha cabeça sobre o seu ombro, e caminhamos lentamente, degrau após degrau, rumando três andares acima. 
       Na porta do apartamento, ele hesitou. 
       - Você tem certeza de que quer me deixar entrar no seu mundo, de novo? - Ele perguntou, dando-me um instante para pensar. 
       - Você tem certeza que não vai me deixar de novo? - Eu rebati. 
       Ele assentiu, respondendo a minha pergunta e eu assenti, respondendo a sua. 
       Ganhei mais um beijo delicado, desta vez na testa. Senti uma contradição crescendo dentro de mim. Eu, que sempre fui uma mulher madura e independente, estava feliz por saber que havia alguem zelando por mim. O beijo delicado se intensificou um pouco, e uma mão contornou minha cintura, do modo mais antiquado quanto era possível. Ele olhou novamente no âmago dos meus olhos, mas desta vez pronunciou três leves palavras:  - Eu amo você. -  Mágicas palavras. 
       O apartamento, apesar de não ter sistema de aquecimento, estava alguns graus mais quente que o corredor e muitos acima do frio que fazia lá fora. 
       Ele andou devagar, atrás de mim, respeitando os limites que eu impunha até aquele momento. 
       Sentou-se na poltrona, que ficava no canto mais iluminado da sala, e começou a tirar seus casacos, que estavam totalmente molhados. Fui buscar um de seus moletons, ainda cuidadosamente dobrados em uma gaveta específica da minha cômoda. Percebi passos, mas não me importei, ele devia estar levando as roupas até a lavanderia. 
       Braços envolveram-me no breu do quarto. Os relâmpagos já tinham cessado, então o ambiente se tornara mais escuro. Eu não havia acendido as luzes porque sabia exatamente onde estavam os moletons. Havia ido até eles inúmeras vezes, apenas para redobrá-los na esperança de que ele voltasse, um dia desses. O dia havia chegado. Agora ele estava atrás de mim, mãos acariciando a pele dos meus braços, descobertas desde que eu tirei meu casaco, ao entrar no quarto. Um beijo suave no meu pescoço. Um arrepio percorrendo todo o meu corpo. Virei-me para seu rosto. Beijei-o. Abracei Benjamim com o máximo de força que pude. Tornei o beijo mais insistente, e procurei manter-me grudada a ele. Éramos um só corpo. Puxei-o para mim, como se fosse possível diminuir a distância entre nós. Ele aceitou o meu abraço, e intensificou seu beijo. Nos amamos como nunca antes. havia respeito e ternura, e não só a paixão e o fogo. Benjamim era outro. Um homem maduro. O homem que eu sempre procurei. Agradeci-me mentalmente por estar usando o edredom que ele mencionara, nos enrolamos nele e amanhecemos ali, abraçados. E assim seria, conforme o meu desejo, por aquele longo período de tempo, chamado sempre. 


Autora: Rayssa Klasman
Blog: Smile!

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O mala, de Mario Kostzer

"Mario Kostzer nasceu em Tucumán, na Argentina, em 1959, onde é proprietário de uma livraria local por onde circulam boa parte das "musas" que inspiraram esse livro. Como profundo conhecedor do tema, o autor resolveu catalogá-las nesta divertida obra que acabou se tornando desde sua publicação um best-seller instantâneo em língua espanhola. O sucesso da malice de Kostzer rendeu outros livros que acrescentam dados consistentes sobre novas e até então não identificadas espécies de mala".




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