quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

AMORte


Descrição: http://1.bp.blogspot.com/-sLHgTZOSJPM/Ttts_m3ZahI/AAAAAAAAANE/CotkPjzYaZs/s640/Poland_1939.jpg

4 da manha, Campos de Wertron, Polônia, 1939
Estava frio e a neblina subira bastante desde as três da manha, quando a tropa principal havia partido, eram 18 pelotões de 300 homens todos munidos de uma Sturmgewehr “Fuzil de assalto” 44 que pesava quase uns 6 quilos, cada pelotão tinha a posse de 160 Maschinengewehr “metralhadora” 43, além de 15 veículos motorizados e 90 cavalos. O chão ainda retumbava os seus passos, e os ecos da noite ainda ressoavam “Lili Marleen” seu brado da vitória: 

“Aus dem stillen Raume, aus der Erde Grund
Volto à Pátria, com os louros da Vitória,
Hebt mich wie im Traume dein verliebter Mund.
Após ter escrito uma página na História.
Wenn sich die spaeten Nebel drehn,
Por ti a Paz eu conquistei,
Werd' ich bei der Laterne stehn
E para o lar eu voltarei,
Wie einst Lili Marleen, wie einst Lili Marleen
Contigo, Lili Marlene, Contigo, Lili Marlene.”


       O coronel Fritz Wolfhardt, Comandante das tropas, havia ficado em wertron deixando o comando provisório do esquadrão para o Tenente-General Franz Jackel . O coronel havia ficado em território de batalha com 2300 homens e se certificará que de que havia um numero expressivo para sua proteção. Há 30 anos no exercito alemão e há 4 no Wehrmacht (Força de Defesa Alema) Fritz Wolfhardt havia conseguido dinheiro e reputação. Embora o que lhe agradasse mesmo fosse sentir o chão tremer quando passava perto de um batalhão devido o chacoalhar dos soldados que o temiam mais do que a própria morte. Não se importava dos boatos e lendas que o rondavam, tão pouco os desmentiam para ele era eficiente, causava pavor nos exércitos inimigos e como ele mesmo dizia: é mais fácil tirar a vida dos que já estão mortos por dentro. Agora ele se encontrava ali em meio aos mortos no campo da vitória .Wertron era uma cidade razoavelmente pequena, tinha 60 mil habitantes que sobreviviam da plantação de batata e beterraba, a primeira vista não haveria nada que interessasse a Wehrmacht para que um combate fosse travado, logo se alguém soubesse do real motivo do ataque a Wertron seria o coronel. 



     “Caros Combatentes Presumo que a maioria de vocês esteja se perguntando o motivo pelo qual ainda não partimos e sei que muitos de vocês estão ansiosos por um prato de comida e uma noite de descanso. Entretanto devo comunicar que esta noite ainda não é hoje. Há muito o que fazer nesta pequena cidade, imagino que muitos poucos de vocês já escutaram falar de Wertron, uma pequena cidade rural da Polônia não seria de interesse de um soldado alemão, porém esta intrigante cidade guarda um perigoso segredo. Fechem os olhos! E sintam o cheiro da putrefação, não dos mortos que nos rodeiam, mas dos vermes que assombram essa cidade, sim meus caros vitoriosos, Wertron guarda um miolo podre dentro de si: 36 mil judeus. Sei que muitos já morreram neste campo de batalha, mas ainda sinto o cheiro dos covardes, sinto a presença da carne dos amaldiçoados escondidos nos sótãos, nos celeiros. Eu me tornei uma lenda de horror para estas pessoas, agora sou eu que desejo que elas se tornem apenas lendas em nossas memorias. É por isso que estamos aqui soldados, ficamos para limpar a sujeira!” 


         As ordens foram bem claras : cada velho, mulher ou criança deveria ser trazido para o Campo de Wertron para ser metralhado, os que oferecerem perigo ou tentarem escapar deveriam morrer no mesmo instante. Fritz certificou-se de que eram ordem claras e inusitadamente satisfatórias para os vermes, não era de seu feito dar um segundo sequer a mais de vida para um judeu, entretanto havia acordado de bom humor. 

       A busca havia começado, 100 homens haviam ficado para a segurança do General Fritz, enquanto 88 grupos de 25 soldados se dispersaram pela cidade. No Agrupamento B-14 sob as ordens do Sargento Klaus estava o soldado Sven Zaschwitz com apenas 19 anos de idade ele já havia servido aproximadamente 4 anos na Força de Defesa Alemã. O agrupamento B-14 até aquele momento exterminara em sua fase de reconhecimento 17 judeus sendo 12 deles idosos e capturara 26 outros. Sven escutara as ordens do Coronel Fritz que foram bem claras quanto ao aprisionamento dos procurados, entretanto sabia que seus companheiros de agrupamento não perderiam a chance de atirar num verme medroso.Porém ele não conseguia sequer levantar a arma para se proteger, e quem dirá para matar judeus em pânico e sem proteção. 

          Sven não era judeu e nem tinha nenhum parentesco familiar com a raça. Entretanto passou toda sua adolescência na casa de sua avó em krogelrsten. Sua avó era muito amiga de sua vizinha chamada Nicole, ela devia ter uns 21 anos quando ele a encontrou pela primeira vez, ele um tolo menino de 13 anos se apaixonou pela loira e bela amiga de sua avó. Certa tarde enquanto tomavam chá na varanda, Nicole se ofereceu para dar aulas de piano para Sven que apesar de nunca sequer ter se interessado por piano aceitou antes mesmo que ela terminasse de propor a ideia. As aulas eram a melhor coisa que aconteceram em sua vida ate aquele momento, o perfume de sua doce professora adornava seus pensamentos que a cada instante lembravam do toque da mão de Nicole na sua na tentativa de ensina-lo a tocar Fur Elise corretamente. Porém ele nunca ousara em fazer nada pois sabia ele que Nicole era uma mulher mais velha e respeitável, Entretanto certa tarde de segunda feira ninguém atendeu a campainha e impaciente como qualquer garoto Sven entrou pela porta dos fundos, não havia ninguém na sala, nem no quarto, logo escutou o barulho do chuveiro e presumiu que ela tomava banho, tentou se retirar cuidadosamente para não fazer barulho mas acabou encostando em uma jarra de agua sobre o criado mudo e o derrubou. Um grito agudo veio do banheiro, seguido de uma pergunta angustiada: Quem esta ai? Sven ficou com vergonha de responder pela primeira vez mas achou melhor contar logo , sabia que havia estragado tudo, não haveria mais encontros, aulas, estaria tudo acabado. Porém foi novamente surpreendido por um convite de Nicole, temeroso cuidadosamente ele adentrou o banheiro onde sua bela e loira professora se encontrava nua a sua espera, sua reação foi de choque, ficou paralisado contemplando-a ate que ela novamente o conduziu com seu toque como se fosse um piano e naquela tarde lhe ensinou a musica mais graciosa que ele já escutou. Foi naquela dia que ele conheceu o paraíso. 
        Todos os dias que passava ao lado dela eram os melhores de sua vida,sua voz, seu toque, seu jeito carinhoso de falar, era tudo perfeito. Ele a amava imensamente. Haviam se passado quase um ano desde a chegada de Sven a krogelrsten, quando numa manhã de terça feira todos da redondeza foram acordados por barulhos de tiros. Sven tentou sair de seu quarto para ver o que estava acontecendo mas deparou com a porta fechada, impossibilitado de sair, tentou não pensar no pior enquanto o tempo passava, será que algo havia ocorrido com sua avó, ou com Nicole? Não demorou mais do que uma eternidade para que sua avó abrisse a porta para dar-lhe um abraço. Consciente da saúde dela Sven preocupou-se com Nicole e quis ir correndo a sua casa, mas foi novamente impedido por sua avó que docilmente lhe deu a pior noticia de sua vida: “Eles a levaram”. 
       Sven soube naquele dia que Nicole era judia, e estava refugiada na pequena cidade sob a proteção de sua avó. Porém apesar de todo sigilo eles acabaram descobrindo seu paradeiro e depois daquela manha de terça ele nunca mais a viu. Ele não saia mais do quarto, ficava vivendo apenas de lembranças, havia perdido a necessidade de viver.Logo Sven passara a sentir compaixão pelos judeus em memoria de seu eterno amor. Um ano depois do sumiço de Nicole foi convocado para ingressar no Exercito alemão para seu martírio. 
        Agora estava em Wertron, procurando judeus para serem assassinados cruelmente. Já haviam recolhido um número surpreendente de 115 judeus e haviam assassinado incontáveis montes deles. O pânico acaba com o senso logico do ser humano, não era difícil encontra-los .Cada fossa, sótão, quarto, edifício, tudo foi revistado. O agrupamento B-14 foi um dos últimos a chegar e traziam um dos menores números de prisioneiros, Sven logo escutou cochichos como: Devíamos ter poupados mais alguns. Após a achegada dos 88 agrupamentos, os prisioneiros somavam um numero de aproximadamente 8.000 judeus. 
           O Coronel olhava a multidão de prisioneiros e sentia uma sensação tão magnifica:" Caros Companheiros, está é uma noite para ser lembrada, primeiro pela nossa triunfal vitória, segundo pela nossa eficaz Faxina. Fico engrandecido por ter homens tão corajosos sob meu comando, e feliz por estarmos transformando nosso pesadelo em lenda. Que cada gota de sangue derramada neste dia, sirva para lavar a terra da imundice da existência desses seres.” E com essas palavras ordenou a matança. 

           Os agrupamentos com mais contingentes eram os primeiros, logo o B-14 teria de esperar um bocado. Em meio ao brados de felicidade alemães algo chegou aos ouvidos de Sven Zaschwits. Um choro, uma voz reconhecível na multidão, pode parecer impossível mas quando nos lembramos todos os dias de uma coisa ela se torna tão reconhecível como um barulho de uma Maschinengewehr 43 na guerra. 

            Ele a viu ou pelo menos supôs que era ela, estava diferente o cabelo estava castanho e o tom da pele um pouco mais escuro mas os olhos e as feições eram iguais, só podia ser ela. Como ele não percebera a presença dela em seu próprio agrupamento, depois de 5 anos ela estava ali na sua frente, pronta para morrer. 

           Havia chegado a vez de seu agrupamento, eram um dos últimos para a execução, mais da metade dos judeus que capturarem eram crianças, entre eles estava Nicole ou pelo menos ele achava ser ela, ele não podia ir ate ela, não podia perguntar nada. Ele simplesmente a olhava e lembrava dos maravilhosos dias que passaram juntos. Não havia como mudar o rumo dos acontecimentos 6 500 judeus já haviam sido metralhados não seria diferente para ninguém. 

          Logo Coube a ele a decisão mais difícil da sua vida.O sinal foi dado e os soldados se posicionaram na frente das vitimas, colocaram as armas a postos, apenas aguardando o sinal para disparar. Lá estava ele nunca havia matado um judeu conscientemente, pode ser que no meio da guerra houvesse assassinado um, mas sem saber sua nacionalidade, agora ele estava matando por um ideal racista e sua primeira vitima seria Nicole. 
           Sven viu que seria a melhor coisa a fazer, em frente a Nicole pela ultima vez vislumbrou seu corpo e lembrou das tardes e do piano, fur Elise, bethoveen e Mozart.Eram tempos divinos mas que se acabaram, a realidade havia sacudido seu mundo. Tentou fisgar os olhos de Nicole mas eram olhos que miravam o chão na certeza de seu destino. Sven ajustou a mira um pouco acima do centro entre os dois olhos de sua amada. Seria Fatal. 
            O sinal tocou e os tiros começaram a ser disparados, mas Sven não atirou, ficou apenas admirando sua Vitima na incerteza de saber se era ou não Nicole. Ela ciente da demora de seu assassinato levantou levemente os olhos ate encara-lo. Os olhares se cruzaram e sua feição mudou.Ela instantaneamente havia ficado mais calma, mais segura. Naquele momento não houve mais duvida. Ela era Nicole, e só assim, ciente da certeza de sua amada,  nela ele atirou. 

      Coronel Fritz Nunca Havia estado Tão bem. No raiar do sol partiu com a ultima tropa deixando 47 mil mortos naqueles verdes Campos de Wertron. Sargento Klaus comandante do agrupamento B-14 havia anunciado as 5:30 da manhã o desaparecimento de um soldado de 19 anos, porém após uma rápida procura todos os que se engajaram haviam desistido do jovem Sven Zachwits.Por onde andaria o jovem Soldado? 

...
Porque acordaste tão apavorado?

Tive um pesadelo Horrível?

Longo?
Por uma vida inteira.
É bom te ver de novo, meu querido Sven.
Me promete que você não vai sumir?
Por que você diz isso Sven?
Não quero te perder. Eu te amo Tanto.
Eu também te amo meu pequeno, mas agora vamos andando tem muitas coisas novas que quero que você conheça.
...


"Tão bom morrer de amor e continuar vivendo. "
Mário Quintana


Autor: Jeferson Barbosa
Blog: Eterno

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